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Luís Filipe Galvão, estagiário do Programa
Inov-Mundus, chegou recentemente a Portugal, depois de 10
meses em Moçambique. Num encontro com a equipa da
AIDGOBAL contou-nos o quão importante e enriquecedora foi
esta experiência.
1. Como surgiu a oportunidade de ir para Moçambique e que
motivos o levaram a ir?
Na altura em que ouvi falar do Inov-Mundus não estava a
trabalhar a tempo inteiro, pelo que não hesitei em
concorrer. Foi num contexto em que estava de volta a Lisboa, depois
de uma experiência de trabalho fora do país e, ao
preencher o formulário, pus em primeiro lugar ficar em
Lisboa. No entanto, quando me ligaram da AIDGLOBAL a propor-me que
passasse um ano em Moçambique, tão pouco duvidei ao
responder afirmativamente.
Foram vários os motivos que me levaram a ir, desde a minha
apetência por viajar e viver noutros países, passando
pela oportunidade de poder trabalhar no terreno numa área
que faz parte dos meus interesses profissionais e, também,
devo confessar, devido às poucas oportunidades de trabalho
que na altura se podiam encontrar em Lisboa. Além disso,
só tinha ouvido falar bem de Moçambique e já
conhecia relativamente bem o país, mesmo sem nunca ter
lá estado. Tenho muitos amigos em Maputo e, tal como eu
previa, eles acabaram por ser extremamente importantes no meu
processo de adaptação.
2. Que tipo de ligação estabeleceu com a AIDGLOBAL e
a sua equipa?
Na verdade, apesar de ter ficado em Moçambique 10 meses,
o meu estágio teve a duração de 1 ano. Ou
seja, antes de partir para África ainda tive a oportunidade
de trabalhar diariamente com a equipa da AIDGLOBAL durante 2 meses.
Foi o tempo suficiente para me integrar plenamente na equipa e
talvez por esse motivo depois tive algumas dificuldades no
início da experiência no terreno. A partir desse
momento passei a ser o único elemento da AIDGLOBLAL em
Moçambique e os contactos com Lisboa passaram a ser feitos
exclusivamente por e-mail ou telefone. Por outro lado, durante a
maior parte do tempo que passei em Moçambique, tive a
companhia de vários grupos de voluntários e
estudantes que desenvolveram actividades no Chimundo, em
colaboração com a AIDGLOBAL, e com os quais mantenho
contacto até agora. É de referir, também, os
parceiros locais da organização, que
contribuíram, em muito, para que a minha experiência
tivesse corrido da melhor forma possível.
3. Que tipo de iniciativas desenvolveu em Moçambique?
O trabalho que levei a cabo em Moçambique foi
extremamente variado: um dia podia estar a ajudar a carregar sacos
de cimento no Chimundo e no outro podia estar numa
recepção em Maputo, na residência do
Encarregado de Negócios da Embaixada da Noruega.
De qualquer forma, as actividades da AIDGLOBAL em Moçambique
passaram sobretudo por dois projectos: O Centro Comunitário
do Chimundo e as Bibliotecas Municipais de Chokwé, Xai-Xai e
do Chibuto. No primeiro caso, o meu contributo era transversal a
todas as actividades do Centro e passava tanto pela ajuda nas idas
às compras ao mercado até ao apoio na
elaboração do Regulamento Interno e de cartas
às entidades oficiais. No que diz respeito às
Bibliotecas, o meu trabalho consistia na
monitorização dos trabalhos de
uniformização dos procedimentos e no apoio a algumas
questões relacionadas com esse processo de
implementação de procedimentos.
Paralelamente a estes projectos, dediquei-me também a outras
tarefas, sempre com o objectivo de melhorar as
condições de vida da população
local.
4. Com que dificuldades se deparou?
Em primeiro lugar, o facto de estar num país estranho,
com uma língua diferente. Na província de Gaza, as
pessoas utilizam sobretudo a língua Changane para
comunicarem entre si e muitas delas têm dificuldades em falar
português. Outra dificuldade que tive foi o facto de a
AIDGLOBAL ainda não ter estruturas físicas ou humanas
no terreno e de ter sido eu o precursor das mesmas. Tive que
começar do zero, seguindo a lógica da tentativa e
erro, o que levou a que o período inicial de
adaptação à cidade fosse também o mais
complicado a nível profissional.
Para além das dificuldades naturais de quem se encontra
longe de casa, realço o facto de o Chibuto ser uma pequena
cidade pouco habituada a ter expatriados, ou mesmo
moçambicanos de outras zonas do país a viver no seu
seio, pois as estruturas e serviços de apoio a este tipo de
população, tais como estabelecimentos de
restauração e rede de transportes públicos,
são praticamente inexistente.
5. Qual foi o momento que mais o marcou?
Eu diria que o momento mais singular foi o falecimento de uma
idosa que vivia no Centro Comunitário, com o qual a
AIDGLOBAL colabora. Participei em todo o processo cerimonial e tive
que procurar os seus familiares mais próximos, porta a
porta, até que encontrei o seu filho. Em cada uma destas
paragens, dedicava-se meia hora a cumprimentos mútuos e
só depois se chegava à questão principal que
era saber onde vivia o anfitrião seguinte. Para culminar o
dia, foi-me atribuída a responsabilidade de conduzir o carro
com o corpo da senhora, desde a morgue do hospital até
à casa do seu filho.
6. Quais são as suas perspectivas no âmbito do
voluntariado internacional?
Não tenho muita experiência na área do
voluntariado. Devo confessar que eu próprio nunca me
dediquei muito a actividades de voluntariado em ONGs.
Não obstante, pelo que me foi dado observar, creio que
deveriam existir 2 tipos de voluntariado internacional: o
voluntariado numa área específica e o chamado
"volunturismo". Este último é o tipo de actividade
que proporciona, àquelas pessoas que estão
interessadas em conhecer uma nova cultura, a oportunidade de
contribuírem com o seu esforço pessoal para o
bem-estar da comunidade de acolhimento. Inversamente, a comunidade
percebe que também está a prestar um serviço a
estes “volunturistas” e não se
“acomoda” a ser apenas ajudada.
7. Para aqueles que estão a pensar fazer voluntariado, que
conselho daria?
Acho que todas as pessoas que estão interessadas em fazer
voluntariado deverão, em primeiro lugar, informar-se das
necessidades das organizações da sua comunidade, de
modo a colaborarem na resolução desses problemas
locais. Vem-me à memória uma frase de um amigo que
também trabalhou em Moçambique e que ouviu da boca de
um alto responsável do governo moçambicano pela
área da Cooperação Internacional, quando
falavam acerca de voluntariado internacional: "Em Portugal
não existem pessoas pobres que necessitam de ser
ajudadas?".
Mesmo que as pessoas achem que os problemas que existem nos
países em vias de desenvolvimento são muito mais
urgentes, a maioria dos voluntários que não se
enquadram nas tais áreas específicas que referi
anteriormente, desenvolveriam um trabalho mais precioso se o
fizessem no local onde vivem. Por outro lado, no voluntariado
internacional, as pessoas dispõem geralmente de um limite
temporal bastante apertado, o que implica que o contributo tenha
que ser dado de forma "concentrada", não promovendo, a meu
ver, da melhor maneira possível, a sustentabilidade dos
projectos.
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